No começo desse mês eu assisti na minha universidade uma conferência sobre pesquisa qualitativa com um professor de Roma. Foi bem legal, mas não é da conferência exatamente que eu quero falar, sim do debate no final da conferência.
Eu sou dessas pessoas que nem sempre fica pro debate no final. Eu nem lembro se alguma vez já fiz uma pergunta. Não é um fato do qual eu me orgulhe ou me arrependa, por enquanto é só um fato. Então geralmente eu me canso logo das perguntas irrelevantes (tipo de quem chega atrasado e pergunta uma coisa que foi exaustivamente explicada no começo) e vou embora. No dia dessa tal conferência, eu estava me sentindo profundamente relaxada e aberta (provavelmente pelo fato de eu estar de volta à universidade e isso me agradar tanto), então eu fiquei.
Uma professora da casa foi lá e falou. Tipo uns 15 minutos ou mais. E muitos professores da casa que estavam no auditório se levantaram e foram embora, com ares de reprovação. Só podia ser a fulana, etc. A fulana é professora do curso de serviço social. E foi lá na frente falar que um projeto de pesquisa dela tinha sido contemplado com uma verba do cnpq (foi mais ou menos nessa hora que os outros professores saíram). E que ela tinha recebido um parecer do conselho de ética e pesquisa da universidade. Ela leu o parecer. Inteirinho. E lá dizia que os valores não seriam repassados e a pesquisa não seria aprovada caso ela não modificasse tais coisas no projeto apresentado. Tipo uma única meta pra cada objetivo específico. Número exato de pessoas a serem entrevistadas. Aplicação prática da pesquisa. E muitas outras coisas assim. Ela estava indignada. E o que ela queria saber do professor romano era se ele já tinha passado por esse tipo de situação. Eu pensei: que bobinha, ela. Adequa esse projeto no papel e pega tua verba. Simples assim, né?
Então o professor respondeu. Disse que essa pergunta teria que ser feita aos colegas americanos, já que esse modelo fechado de projeto era deles. E que os pesquisadores de lá conseguiram, depois de muito bater cabeça, abolir esse tipo de enquadramento quantitativo que se tentava dar às pesquisas qualitativas. E que na Europa ele mesmo nunca tinha ouvido falar em conselho de ética.
Foi aí que eu percebí, né? Toda a questão envolvida. No meu pensamento lá em cima, principalmente. E eu lembrei disso porque ela estava dizendo que é a chata do almoço. Desconstruindo sempre. Nos últimos tempos, eu aprendi a abstrair. Ignorar e tocar a vida. Faz menos mal pro coração, né? Não altera os ânimos, nem a pressão arterial. Então eu sigo abstraindo e vivendo sem maiores conflitos. Mas é só isso?
A bobinha da história sou eu, óbvio. Porque alterar um projeto só pra ele caber em tais normas e receber uma verba pela pesquisa não me colocaria num patamar diferente de uns e outros que fazem projetos pra receber a verba pela verba. Não muda a situação em nada. Só reafirma. E não tá bom. Mas é que pra mim, não existia outra forma. Eu aprendi assim na graduação. Que se não cabe, você mexe. Porque o importante é receber o apoio. A verba. Com a verba, você faz o que quiser. E eu só fui perceber que não, não é bem assim quando eu vi que pode ser diferente. Não se comover, abstrair, ignorar e tocar a vida pode parecer, mas nem sempre é o mais sensato.
Eu também aprendi que com orientador não se discute. Essa, entretanto, foi uma lição bem mais fácil de contrariar.